Portais da Coerente Incoerência Poética


 

Piada Mal Contada

 

 

 

 

Não é o peso da madrugada,

Ou desmantelo das horas embalsamadas pela rotina,

O que arraiga o fim dos tempos,

É esse cheiro de pão quente que assombra a mente no deserto,

É tudo que de longe se entrega tão perto,

É o descompasso augusto dos pés viajando,

O que prospera sobre nossa esperança,

É esse saber das coisas que não tem jeito,

É ter-se peito e ossos e sangue nas veias,

O que limita nossa visão é ver-se muito,

E nunca enxergar nada.

 

 

 

 

Ivan Neri 06/01/2012

 

 



Escrito por Ivan Neris às 21h56
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Poema Desencorajado

 

 

Só me deixe aqui quieto, até que meu coração se acalme,

Estamos em um tempo de água e fumaça

E não há fogo para aquecer a esperança.

 

Só me deixe aqui quieto, até que meu coração se esqueça,

São inoportunos os dias em que mesmo o mar fechasse em silêncio,

E que por despeito a lua rumina entre dentes,

Enquanto pasta no céu noturno.

 

Só me deixe aqui quieto, até que meu coração se esclareça,

São sem fim os dedos e os tecidos que colorem a cama,

E a sorte emana seu juramento,

De nunca passar por esta encosta.

 

Só me deixe aqui quieto, até que meu coração se perca,

Nem sempre tudo teve que partir,

Mas sempre tudo atrasasse em chegar.

 

Só me deixe aqui quieto, até que meu coração se anime,

os braços já não sabem das mãos,

E as mãos não enxergam mais selos.

 

Só me deixe aqui, quieto! Até que meu coração soluce,

As tardes sangram sem socorro nas ruas,

E eu não vejo nada ao aportar na praia.

 

Só me deixe aqui quieto, calado, parado, zangado, malquisto e permanente,

Até que meu coração sufoque entre pulsos elétricos,

Até que meu sentimento biônico e afônico,

Planeje alguma coisa qualquer sem sentido,

E no último instante...

 

 

Ivan Néris 04/01/2012

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Ivan Neris às 21h39
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Cão Cego Quatro

 

 

Cão cego, de tão cego eu seu verbo nego,

Cão cego, gemendo a dor do ego,

Na sombra da manhã que chega.

Cão amigo e roto,

Cosendo seu suplicio entre risos,

Carecendo de apetite e esperança.

Criança de pelos sujos,

Confiante na queda inevitável,

Que acompanha toda caminhada,

Virá você latindo novamente?

 Cão cego arfante e insondável,

Rememora a solitária angustia do saber,

A perspicaz certeza sobre o sonho,

A delirante lágrima solta pelo destino,

Ao ver um dia nascido seu dono.

 

 

Ivan Neris 13/07/2011



Escrito por Ivan Neris às 20h50
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Fuga de um coração

 

Quando a porta do elevador se abriu

Meu coração saiu rolando,

Meio que sem pensar direito,

O segui desembestadamente pela rua,

Era horário de rush e o vai e vem de esfomeados do capitalismo,

Tornava extremamente difícil, alias quase impossível,

Manter os olhos atentos a sua rota,

Percebi que meu coração se move a uma velocidade antinatural,

Nunca havia pousado a atenção ao fato,

De ter no peito um coração que almejava secretamente,

Correr o mundo e mapear o desconhecido,

Por incrível que pareça, sempre achei que tivesse um coração pacato,

Um coração resignado diante da vida morna e previsível,

Sentenciada a ralé pela classe dominante.

Mas aquele coração que vi saltando bueiros,

Não era nem de longe um coração conformado,

Era um coração selvagem e destemido,

Ele foi assim rolando furtivamente entre os passos dos transeuntes,

Eu corria atrás dele sentindo um misto de desespero e orgulho,

Desespero com a possibilidade do esmagamento

E orgulho ao ver que meu coração enfim rebelara-se comigo,

Sem a menor hesitação ou arrependimento.

Que coração corajoso eu pensava! E pensava também não pisa!

Mas eu percebi que se tratava de um coração astuto,

Que sabia como poucos desviar-se dos acidentes no caminho,

Como também não tremia diante dos riscos da liberdade.

De tanto correr acabei conseguindo alcança-lo,

O difícil foi agarrá-lo, tratava-se de um coração muito escorregadio,

Tive que tirar a camisa e jogar sobre ele para captura-lo,

E posso afirmar com certeza absoluta que não há animal neste mundo,

Que tenha se debatido tanto ao ver-se interceptado,

Mas por fim sem forças para continuar a disputa,

O coração fujão voltou para o seu lugar de origem, meu peito.

 

Ivan Neris 29/07/2011

 



Escrito por Ivan Neris às 20h26
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Indícios

                    

 

 

Sinto que a vida passa por aqui,

Por esses espaços que meus pés transcorrem,

E por onde o silêncio define a cor das regiões,

Nos segredos que se intitulam guardiões das nossas fraquezas,

Cedo ou tarde uma tarde finda e a noite continua,

É assim que os capítulos terminam.

Eu pouco sei sobre o que é qualquer coisa,

Ou como se faz para as coisas ficarem feitas,

Só sei que faço o que a minha frente espera ser feito,

Pois o que faço indica sentidos as palavras e aos atos,

Que nascerem do que sou eu.

Contra ou a favor da maré,

Quando falta o vento eu remo,

E assim meu barco e eu seguimos,

Sem nos dar conta do que queriam de nós,

Ou qual seria o preço justo a ser cobrado,

Pela discrição de nossa indignação,

Diante dos ventos que desfazem os sonhos,

E arrebentam o peito quando é madrugada.

As dores agudas o que resta são alguns aplausos,

Pois ao que se comprova imutável,

Pouco importará o aplauso ou a vaia,

Mas para quem assistira ao espetáculo,

O aplauso tem um som mais doce.

 

 

Ivan Neris 25/09/2011

 



Escrito por Ivan Neris às 08h52
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Soluços

 

 

É no centro das coisas, que se torna claro como água-viva,

Todas as coisas que faltam,

A vida não anda dando pé,

Ela se releva ser uma pescaria sem anzol,

E nas profundezas do que ainda está para ser descoberto,

Segue distante qualquer verdade possível,

O que resta é falar, falar e falar...

Ou comprar e comprar e comparar o que é belo,

Antes mesmo de ser palpável,

Ao que não tem gosto, nem cor, nem cheiro.

Quem dera o paraíso fosse um lugar passível de ser encontrado,

Mas também de que nos valeria todo o paraíso,

Quando escapa aos sentidos o ângulo para se erguer entre as ondas.

 

 

Ivan Neris 25/08/2011

 

 



Escrito por Ivan Neris às 19h40
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Sobre o Poema

 

 

Ao que me parece à permanência equilibrada como parte da espécie humana e ou existência do ser neste mundo, depende em grande parte da capacidade de estabelecer pontos de ligação com os outros espécimes de sua espécie, através de fatores como o reconhecimento que ocorre dos outros quanto a quem e o que somos e no caminho inverso quanto a quem são aqueles que nos cercam e mais além como e porque são o que são.

As relações afetivas são outro ponto importante de ligação, pois promove em primeira instância uma interlocução direta com outro espécime e por reflexo canais de interlocução com aqueles que estejam ligados ao outro e vice versa.

            Porem disso retorna a permanente dúvida de que valha realmente a pena tentar estabelecer esta ligação concreta com um mundo que quase sempre me parece não carecer ou merecer a minha presença nele.

            Eu escolhi artista como a forma mais coerente para me apresentar e me relacionar com meus semelhantes, porem rejeitando tanto a definição popular de que todos os que são apresentados pela mídia como sendo artistas, quanto à erudita de que a qualidade e ou amplitude de sua obra são definidos pela sua fama, pelos seus prêmios ou pelo que você está apresentado ou lançando enquanto obra e onde.

            A poesia foi para mim uma oportunidade de libertar meu grito de dor e acalmar meu holocausto interno.

            Eu exerço o oficio da poesia há vinte anos, dentre os quais passeei pelo concretismo e pelos poemas decassílabos, para chegar ao estilo que melhor exprime minha maneira de pensar e minha personalidade e posso afirmar com certeza que nada na minha lira prolixa está lá por acaso.

Minha poesia é composta de camadas cheias de labirintos e pistas falsas, se ao ler uma delas uma primeira vez você acreditar que alcançou seu significado, provavelmente terá parado na primeira delas e será preciso reler uma segunda ou até uma terceira vez, até que algo nela passe a lhe incomodar insuportavelmente, ai você terá chegado á última camada dela e estará irremediavelmente contaminado.

 

 

 

 

 

 



Escrito por Ivan Neris às 13h57
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Aquilo

Porque nos pertence à expectativa,

Que nos deparamos com nossos olhos molhados diante do espelho,

E é porque tudo o que começa um dia deve findar-se,

Que todo beijo finge inocentemente ser eterno.

 

 

Cabe a cada um, saber morder entre dentes a dor da perda,

E para além dela construir qualquer outro castelo.

São nos castelos do nosso ilusório,

Que as maiores batalhas serão por fim travadas,

As outras, aquelas que escravizam nossa força,

O nosso ódio e o nosso contentamento,

Dessas nos sobreviveremos inteiros ou aos pedaços,

Porem as que ocorrem dentro,

Nelas é possível morrer para sempre.

Para aprender a ter é preciso ser capaz de perder,

Pois do outro lado da imagem,

Resta sempre ele solitário, mas inteiro,

Dele outra parte move-se e alça voo,

E noutro universo tudo recomeça.

Assim as lendas são escritas

E assim o que era pequeno,

Passa a ocupar o infinito espaço.

 



Escrito por Ivan Neris às 22h08
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Quis assim

 

Eis o espanto que te cabe sua vida,

De repente tudo está ali,

O mundo, dor, alegria e tristeza,

Crucificação e perdão,

Goela e faca,

Dedo e martelo,

Como no principio e ao fim,

Duas partes começadas de histórias,

E memorias augustas tangendo naves,

Sobre a apoteose da existência.

E isso aqui oh oh é um pouquinho de Brasil,

Pois por agora, só dos fracos eles tem o nome,

Mas aqui entre nós,

Melhor que seja assim...

Desapareçam os guias,

Nesta estrada, minha causa já perdida,

Causa-me ânsia de vingança infinda.

Tanto e então, ai de mim quando despertar.

 

Ivan Neris 25/11/2010



Escrito por Ivan Neris às 20h45
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Figurativo

 

 

 

É entre partidas de carro e elevadores panorâmicos,

Que nosso silêncio comemora o advento da vírgula,

Há alguma coisa escondida debaixo da escada...

Sinto que alguma presença exata como a luz do dia,

Vem descendo ladeira abaixo para vir cair no meu peito,

Talvez sejam meus infalíveis fantasmas,

Que cedo ou tarde trairão minha covardia.

Longe da estrada de tijolos amarelos,

Eu sempre descubro que mais imaginação do que caiba,

Ilicitamente passeia nos coletivos.

Já não sei mais a formula para levantar-me cedo,

Depois que a verdade passou a discutir comigo,

O que é sim e o que é não a madrugada inteira.

Nunca soube como é que se alcança qualquer coisa que se queira,

Mas aprendi que é por ai que a vida trafega enquanto passa.

E quando é que começa e quando será que termina?

Eu só sei que não sei e que não creio na resposta de quem sabe.

Pasmem! Decidi que qualquer dia desses volto pro disco,

Só não decidi ainda quem herda a ilha.

 

 

Ivan Neris 25/06/2011

 

 

 

 

 



Escrito por Ivan Neris às 07h09
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Maria e Raimundo

 

 

Eu lavo roupa canto toada,

Ele trabalha pra criar a meninada,

A nossa vida não é de luxo,

Mas mesmo assim não trocaria ela por nada,

Quando a chuva cai

 Os olhos dele brilham de alegria,

Eu sou Maria ele é Raimundo,

Somos retratos das mazelas deste mundo,

 

Quando menina, o que eu sonhava,

Era ensinar o Bê-á-bá pra minha gente,

Quando menino ele queria

Ser poeta e cantador de repente,

Quando o sol se vai, ele retoma o rumo da casinha,

Ela é de barro, ela é caiada,

Esconderijo dessa gente abandonada.

 

 

Letra de Ivan Neris e musica de Tarcisio Hayashi, gravada pelo grupo G.R.A.V. E.

 



Escrito por Ivan Neris às 21h09
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Akira

 

 

Akira que enganados acreditávamos estático,

Sabe-se, morde-se, beija-se, comunica-se com febre,

Arrefece os punhos e bate,

Bate e bate e continuará batendo,

Na porta cerrada dos ouvidos do medo,

Sem sequer fazer segredo de sua intenção,

Sem receio nem deslumbre,

Movesse dentro, baila fora e diante dos olhos de todos,

Berra seu permanente hino de batalha,

Sua criadora fuligem de letras e virgulas e palavras.

Akira poesia que madura e benevolente,

Acalenta as amigas liras vadias,

Sem receio nem ambições,

Escorre lindamente da ternura dos dedos Yamazaquianos,

E pelos anos vem cantando a vida e encantando almas,

Que não conseguem permanecer inertes,

Aos desenhos que o poeta colore,

Entre as fronteiras do inóspito e da incerteza.

 

 

Ivan Neris 10/06/2011

 



Escrito por Ivan Neris às 01h38
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Reflexo


Minha poesia ganha força nas horas insossas,

Em que o mundo despenca entre naufrágios

E o destempero da palavra morna dos jornais,

Renega a fúria que vai nas nossas almas.

É precisamente quando o silencio abastece a truculência,

Que meu verso sentencia a necessidade de mais um tiro,

De alguma explosão, de alguma distorção irresponsável,

De toda ordem que se creia estabelecida.

É quando a boca arde recortada e a língua esmagada pende-lhe,

Que uma voz que não tem dono, nem sono, nem paz,

Abre as entranhas da minha consciência,

Resvala entre os ossos do abdômen e parte.

Parte para um destino desconhecido,

Parte sem ter promessa de chegar ao objetivo,

Mas parte assim mesmo desprovida de garantias,

Para qualquer lugar que desprevenido,

Não lhe perceba a intrusão.

Assim é que a ressaca da minha indignada lucidez,

Pousa na pagina e destrava algumas fechaduras.



Ivan Neris 10/06/2011


 



Escrito por Ivan Neris às 01h16
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Fora do diário

 

  

São algumas coisas tão comuns,

Que pela vida toda nos segue entre sombras,

Um sorvete de limão no parque,

A capa de um caderno preenchido por palavras que perdemos o sentido,

O mais recente filme a nos assistir comovidos,

Algum maço de cigarros vazio jogado hoje no quarto,

Que antes era escondido em cima do guarda-roupas,

Após ter despertado conosco apos aquele primeiro,

Maior porre tomado na vida.

O mais recente livro predileto,

Ou aquelas revistas proibidas,

Que um dia estiveram debaixo do colchão.

São algumas das coisas que nos forjaram quem somos,

Um segredo que revelar-se ia a todos,

Ao ver-se segredado ao naquele momento maior amigo,

A imagem do beijo que só sonhamos ter dado,

Algumas sementes das uvas do réveillon,

Que se ocultaram por anos na carteira,

Canções nunca assumidas entre nossos gostos,

Canções constrangidamente assumidas pelos nossos gostos,

A primeira impressão do toque dos dedos solares,

Sobre a timidez da retina,

A sensação da primeira gota de chuva no caminho do colégio,

A primogênita exposição ao riso da mãe,

A primeira promessa de amor eterno,

A cor do primeiro balão avistado,

A dor da primeira martelada em um dos dedos,

O primeiro choque, o primeiro corte, a primeira queda,

O primeiro disco, a primeira transa, o ultimo fora,

O ultimo plano, o maior engano, o derradeiro adeus,

Ao semana passada, amor para vida toda,

São algumas das sinceras futilidades,

Que nos definem por toda vida,

Argumentos que fazem parte do nosso texto,

Tintas fugazes na tela que retrata nossa viajem,

São só algumas coisas tão comuns,

Que pela vida toda seguem.

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Ivan Neris às 21h09
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Senha

 

 

 

Toda a senha, barco e vela,

Todo sol nasceu assim,

Do seu beijo, o desejo,

De amar o que não se quis.

 

O encontro, nesse ponto,

Não há portas pra sair,

Verte o cosmo, brota a clave,

Som se faz no teu fingir.

 

Mim e ti, sem compasso,

Rompe o lastro e desagua em mim,

Sem mentiras, fim da ira,

E a ilusão não cabe aqui,

Pra se perder basta o abismo,

Pra me achar olho pra ti.

 

 

Ivan Neris, letra de uma canção composta não se sabe em qual data ao certo, musica de Vinicius Viana e Tarcisio Hayashi.

 

 

 



Escrito por Ivan Neris às 20h16
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